O estrangulamento de Ormuz: como o choque no mercado petrolífero está a reconfigurar a economia global
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A profunda instabilidade geopolítica no Médio Oriente, que se agravou drasticamente no final de fevereiro, ditou o bloqueio do Estreito de Ormuz. Mais do que uma mera via de navegação, este é o grande canal de escoamento de um quinto do petróleo mundial — um fluxo energético avaliado em cerca de 600 mil milhões de dólares anuais. Sem este crude a circular livremente, o mercado petrolífero sofreu um abalo sísmico, e o impacto deste estrangulamento focado na energia rapidamente alastrou a todos os setores da economia global.
O sufoco sentido nas bombas de combustível é o reflexo mais visível e imediato desta crise energética. Nos Estados Unidos, o panorama ilustra bem a extrema volatilidade do “ouro negro”. Em Chicago, encher o depósito custa hoje mais 70 cêntimos por galão do que há um mês, o que representa uma subida vertiginosa de quase 1,70 dólares face ao ano passado. No Texas, um estado historicamente ligado à produção de crude, a gasolina saltou dos 2,55 dólares no início de fevereiro para os 4,52 dólares. A situação colocou os consumidores em estado de alerta: uma sondagem do Texas Politics Project mostra que 61% dos eleitores estão “muito preocupados” com o custo dos combustíveis — um salto de 23 pontos percentuais desde fevereiro.
Tentar compreender o valor na bomba exige olhar para a complexa teia global do crude. Este preço resulta sempre do frágil equilíbrio entre a oferta e a procura, onde os investidores negoceiam contratos futuros com base em disrupções no fornecimento, picos sazonais de consumo ou a descoberta de novas reservas. Depois de extraído do subsolo, o petróleo soma ainda os pesados custos de refinação, impostos estaduais (como a taxa fixa de 20 cêntimos no Texas), o transporte e a margem de lucro das gasolineiras.
Por isso, mesmo os EUA, sendo exportadores líquidos de petróleo, não escapam a esta fatura, uma vez que as cotações do barril são globais. Quando a paralisia em Ormuz retirou repentinamente do mercado 20% do petróleo mundial, os produtores norte-americanos ajustaram de imediato as suas tarifas em alta para dar resposta a esta nova realidade de escassez. Como nota Sam Ori, diretor executivo do Energy Policy Institute da Universidade de Chicago, “estamos perante a maior rutura na história do mercado petrolífero”.
Mas a dependência do crude e dos seus derivados não afeta exclusivamente os automobilistas. A inflação energética ameaça também a agricultura, já que os preços do gás natural, essencial para a produção de fertilizantes azotados, dispararam a reboque da cotação do petróleo. Ken Foster, especialista em economia agrária na Universidade de Purdue, explica que a maioria dos agricultores do Midwest conseguiu garantir os seus stocks antes do início desta grave crise logística e energética. A grande incógnita agora centra-se na duração deste bloqueio. Se o impasse se arrastar até ao outono, o planeamento agrícola para a época de 2027 ficará seriamente comprometido, forçando os produtores a tomar decisões difíceis sobre que tipo de culturas vão semear.
Até ao momento, o encarecimento dos bens alimentares nos supermercados decorre quase exclusivamente da subida dos preços da energia, fundamental para garantir o transporte e a refrigeração dos produtos. Contudo, à medida que as reservas globais de crude — que estavam num nível confortável no início do ano — começam a escassear, os mecanismos que até aqui amorteceram o choque estão a ceder. Menos petróleo disponível significa preços ainda mais elevados, gerando uma espiral onde as famílias, forçadas a gastar mais em combustível, acabam inevitavelmente por contrair o consumo noutras áreas.
O momento em que se dará o desbloqueio do estreito assume uma importância crítica. Se a via marítima reabrir a tempo, o mercado de fertilizantes poderá ajustar-se em escassas semanas, aliviando uma pressão imensa sobre o setor alimentar. Contudo, a normalização do mercado petrolífero será um processo manifestamente mais moroso. Retomar o tráfego não significa que os barris de crude voltem de imediato a inundar o mercado com a mesma eficiência. Segundo as análises mais recentes partilhadas por Sam Ori, o mercado petrolífero global precisará de cerca de seis meses de circulação ininterrupta para voltar a encontrar o seu ponto de equilíbrio e estabilizar a cotação do barril.
Paradoxalmente, a escassez que esvazia as carteiras dos consumidores traduz-se numa autêntica mina de ouro para a indústria energética. De um dia para o outro, o petróleo tornou-se um ativo altamente valioso. No ano fiscal de 2025, o setor do petróleo e gás natural do Texas gerou uns impressionantes 27 mil milhões de dólares em impostos e royalties locais e estatais — o segundo valor mais alto de sempre na história do estado. Uma prova clara de que, no epicentro desta crise global, a disrupção no acesso ao petróleo é um negócio extremamente rentável para quem o detém.