A Fatura de Zalazar: O Tomba-Gigantes em Leiria e o Dérbi Fora de Campo
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O futebol tem uma ironia muito própria, daquelas que o destino desenha com um sorriso trocista. Em Leiria, o Sporting de Braga carimbou o passaporte para uma final inédita da Taça da Liga — um escaldante dérbi minhoto contra o Vitória de Guimarães, que na véspera já tinha despachado o Sporting. Para trás, ficou um Benfica vergado a uma derrota pesada por 3-1. Mas a narrativa deste jogo não se esgota no apito final nem nas quatro linhas. Tem contornos de mercado, hesitações de tesouraria e um nome incontornável: Rodrigo Zalazar. O mesmo uruguaio que as águias cobiçam, mas que teimam em não agarrar, acabou por ser o carrasco da noite.
Perante mais de 17 mil adeptos nas bancadas, os encarnados até entraram a querer mandar. Logo a abrir, uma combinação entre Dedic e Pavlidis obrigou Lukas Hornicek a uma estirada colossal, com o guardião do Braga a negar logo a seguir a recarga de Sudakov. Contudo, o ímpeto benfiquista esvaziou-se depressa e os arsenalistas tomaram as rédeas da partida. Depois de um penálti sobre Zalazar revertido pelo VAR para livre à entrada da área — que o próprio atirou contra a barreira —, o Braga não tirou o pé do acelerador. Num jogo que se tornou de parada e resposta, o uruguaio vestiu a pele de maestro ao minuto 19, descobrindo Pau Víctor no coração da área para um remate sem hipóteses para Trubin.
Estava dado o primeiro aviso, mas Zalazar fez questão de assinar a obra ele mesmo. Pouco depois da meia-hora, arrancou em força, deixou Sudakov e Otamendi a ver navios e, cara a cara com o guarda-redes ucraniano, fuzilou para o 2-0. Uma lição de pragmatismo numa primeira parte em que a equipa minhota dominou de forma categórica, aproveitando a incapacidade gritante do Benfica para criar perigo real. Até ao intervalo, Ricardo Horta ainda ameaçou o terceiro, atirando à malha lateral após mais um passe de Zalazar, expondo um erro de Samuel Dahl na saída de bola.
José Mourinho percebeu que precisava de abanar a estrutura e lançou Prestianni para o lugar de Manu no reatamento. A equipa lisboeta surgiu transfigurada, mordedora. Sudakov deu o alerta num livre direto e, no outro lado do campo, Trubin manteve a equipa à tona ao negar novo golo a Pau Víctor. À passagem da hora de jogo, a esperança encarnada renasceu: Paulo Oliveira derrubou Pavlidis na área e o grego, da marca dos onze metros, não vacilou, enganando Hornicek. O Benfica cresceu e encostou o Braga às cordas, valendo um corte providencial de Tomás Araújo a remate enrolado de Fran Navarro para manter as águias na discussão.
Só que o Braga soube sofrer e, aos 81 minutos, exatamente quando a maré parecia virar para o lado encarnado, desferiu o golpe de misericórdia. Na sequência de um livre batido por Ricardo Horta na direita, Trubin ainda conseguiu uma enorme primeira defesa, mas a recarga de Lagerbielke encontrou o fundo das redes. O 3-1 foi a machadada final no lado emocional do Benfica, culminando no descalabro de Otamendi, expulso por acumulação de amarelos após protestos escusados.
O pano cai sobre Leiria, mas levanta-se na secretaria, onde se joga um dérbi lisboeta bem mais silencioso. A exibição portentosa de Zalazar não é obra do acaso; reflete uma época brutal com 23 golos e oito assistências em quase 3.300 minutos de jogo, espalhados por quatro competições. É um ativo de 22 milhões de euros que se tornou o alvo de um braço de ferro à semelhança de novelas passadas, como as de Issa Doumbia e João Palhinha.
O Benfica foi o primeiro a bater à porta da Pedreira para perceber os contornos do negócio. O problema é que a Luz informou os responsáveis bracarenses de que só avançaria com uma proposta formal depois de resolver a situação de Georgiy Sudakov — o mesmo Sudakov que Zalazar eclipsou em campo. E no futebol, como no mercado, quem dorme perde o comboio.
A passividade encarnada abriu uma via verde que o Sporting não hesitou em aproveitar. Em Alvalade, a postura tem sido agressiva e cirúrgica. A estrutura leonina recusa ficar refém da já esperada saída de Morten Hjulmand no verão e assumiu a dianteira pelas negociações. O atraso do Benfica deu margem de manobra ao rival da Segunda Circular para seduzir o médio. No fundo, a inércia tem um preço. O jogo em Leiria acabou por ser apenas a face visível dessa letargia: enquanto os encarnados calculam o próximo passo fora das quatro linhas, Zalazar segue em frente, levando o Braga à final da Taça da Liga e deixando o Benfica de mãos a abanar.